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Desmistificando morcegos

Biólogo e mastozoólogo Kleber Pinto Antunes de Oliveira

Porto Alegre, 25/02/2008

Foto: Science/Divulgação.











Neste artigo exclusivo de divulgação científica, o biólogo mastozoólogo Kleber Pinto Antunes de Oliveira aborda o tema de forma interessante e didática: mostrando-nos que há todo um outro universo dos morcegos para além dos estereótipos convencionais e dos clichês associados via de regra ao sensacionalismo e a informações perpetuadas sem base científica.


Muitas lendas, mitos e crendices vêm sendo associados aos morcegos nos últimos séculos e permanecem fortes até os dias atuais. Quase que a totalidade destas informações não possui respaldo científico, mas contribuíram em grande intensidade para que estes importantíssimos animais acabassem sendo vítimas de preconceitos e perseguições injustificadas.

Neste artigo, você terá oportunidade de saber mais sobre os morcegos, tomar conhecimento sobre a enorme importância dos mesmos em diversos ecossistemas e para o bem-estar humano, e outras razões que nos motivam a atuar cada vez mais no sentido da preservação destes maravilhosos mamíferos voadores. Ao final da página você pode fazer o download de um arquivo PDF com a descrição resumida e as imagens das cinco famílias de morcegos que ocorrem nos territórios de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.


Segunda maior ordem dos mamíferos

Morcegos ou quirópteros são mamíferos que pertencem à ordem Chiroptera. A palavra Chiroptera originou-se do grego cheiros = mão e pteros = asa, ou seja, “aquele que tem asas nas mãos”. São os únicos mamíferos que possuem a capacidade de voar.

Os morcegos estão distribuídos em duas subordens: Microchiroptera e Megachiroptera. As espécies da subordem Microchiroptera ocorrem em diversas partes do mundo, principalmente nas Américas. As espécies da subordem Megachiroptera só ocorrem na África, Ásia e Oceania, e são denominadas popularmente de raposas-voadoras.

No reino animal, a ordem Chiroptera é a segunda maior na classe dos mamíferos em número de espécies, perdendo apenas para a ordem Rodentia, dos roedores. Atualmente existem no mundo cerca de 1.200 espécies registradas de morcegos. No Brasil, ocorrem 170 espécies; em Santa Catarina, 42 espécies; e no Rio Grande do Sul, 41 espécies.

Em todo o Brasil, existem nove famílias de morcegos. Em Santa Catarina há cinco famílias de morcegos, e no Rio Grande do Sul ocorrem quatro famílias. Como o clima subtropical é predominante nesses dois Estados, há um limite no número de espécies que ocorrem em seus territórios. Fatores relacionados às latitudes ocorrentes na Região Sul do País também fazem com que esta área seja a que possui o menor número de espécies.

Incluindo o Estado do Paraná, existem aproximadamente 65 espécies de morcegos registradas para a Região Sul como um todo. Já na Região Sudeste do Brasil, por exemplo, há aproximadamente 90 espécies de quirópteros; e na Região Norte, cerca de 130 espécies.


A IMPORTÂNCIA DOS MORCEGOS PARA O MEIO AMBIENTE E PARA O HOMEM

Quando conhecemos o verdadeiro papel dos quirópteros na natureza e também em atividades e processos relacionados ao bem-estar humano, torna-se fundamental divulgarmos tais informações para o maior número possível de pessoas.

- 70% dos morcegos são insetívoros. Setenta por cento das 1.200 espécies ocorrentes no planeta são insetívoras, e dependendo da espécie, cada indivíduo come até quinhentos insetos por hora e três mil por noite. O mito do “morcego vampiro”, que se alimenta de sangue, está restrito, portanto, a um percentual muito pequeno dentre as 1.200 espécies de morcegos: deste total, apenas três espécies são hematófogas.

- Bioindicadores ambientais. Morcegos são excelentes bioindicadores da qualidade da preservação ambiental, da situação atual de um ecossistema, pelo fato de algumas espécies serem sensíveis às mudanças ambientais.

- Controle biológico natural na lavoura. Morcegos podem atuar como controladores de pragas na agricultura. O grande número de espécies insetívoras de morcegos é responsável por uma grande redução no uso de produtos químicos nas plantações, gerando como resultado um ambiente mais saudável e alimentos de melhor qualidade, mais ecológicos.

- Polinização de plantas. As plantas que são polinizadas e dispersas por morcegos produzem mais de 450 produtos de importância econômica, tais como alimentos, remédios e muito mais. Algumas espécies vegetais, inclusive no Brasil, só são polinizadas através de morcegos.

- Florestamento e regeneração de florestas. As espécies frugívoras são responsáveis pela ampliação de áreas florestadas e também colaboram na regeneração de ambientes florestais.

- Adubo. Atualmente em menor intensidade, mas há países onde ainda se utiliza fezes de algumas espécies de morcegos como adubo, considerado de ótima qualidade.

- Medicamentos. Uma substância presente na saliva do morcego hematófago Desmodus rotundus tem sido cada vez mais utilizada na fabricação de medicamentos e na cura de problemas cardiovasculares. A substância em questão possui um grande poder anticoagulante.

- Radares e sonares. Grande parte das pesquisas feitas até hoje para o desenvolvimento de radares e sonares sempre tiveram nos morcegos, junto com golfinhos, os principais agentes das experiências.

- Turismo ecológico. Numa época quando cada vez mais se estimula o turismo ecológico, exemplos como o do município de Austin, no Texas (EUA), dentre outros, tende a ser multiplicado. Em Austin, ao final da tarde, dezenas ou centenas de turistas e moradores da cidade dirigem-se para a maior ponte da cidade e observam a saída de milhares de morcegos insetívoros para a caça de suas presas. Este fenômeno é uma atração turística da cidade há mais de 10 anos.

- Presença simbólica em culturas e civilizações. Morcegos são (ou foram) importantes em culturas e civilizações de todos os continentes, há muitos séculos, dentre elas as civilizações maia, chinesa, mexicana, índios da Região Norte do Brasil.

- Cadeias alimentares. Morcegos são componentes fundamentais de muitas cadeias alimentares, tanto na condição de presas, quanto na de predadores. Em algumas cavernas, é devido à presença dos quirópteros que se torna possível a existência de outras espécies animais que se alimentam de restos alimentares que os morcegos deixam cair no chão, assim como também se alimentam de fezes de morcegos.

- Fonte de alimento humano. Em algumas regiões da África e da Ásia, durante certos períodos do ano, morcegos são importantes na alimentação diária destas populações humanas, quando a oferta de alimentos oriundos da agricultura é reduzida ou ausente.

- Comedores de baratas e mosquitos. Entre as espécies predadas pelos morcegos, encontramos mosquitos e baratas.

- Insumos industriais. Algumas bactérias das fezes dos morcegos são usadas na produção de enzimas utilizadas na destoxificação de restos industriais, na produção de inseticidas naturais e de detergentes, e na transformação de resíduos em álcool.



COMO OS MORCEGOS SE REPRODUZEM?

Os morcegos possuem uma reprodução parecida com a do homem. São animais placentados. Quanto ao período da gestação, varia de menos de dois meses, em algumas espécies pequenas, a nove meses, nas grandes raposas voadoras. Nas espécies de médio porte, a gestação varia de 50 a 120 dias.

As fêmeas geralmente dão à luz um filhote. No gênero Lasiurus, da família Vespertilionidae, que só possui espécies insetívoras e que ocorre em SC e no RS, é comum o nascimento de dois filhotes. Os recém nascidos pesam de 15 a 30% do peso de suas mães. Nas regiões tropicais e subtropicais, algumas espécies possuem, ao longo do ano, duas gestações, enquanto que outras apenas uma. Nas regiões tropicais, o período de gestação geralmente está associado à fase do ano onde houver maior disponibilidade de recursos alimentares.



ONDE SE ABRIGAM OS MORCEGOS?

Os quirópteros desenvolvem as suas atividades ao anoitecer e de noite. Ao longo do dia repousam. Para as atividades de repouso, diversos tipos de abrigos são utilizados, dependendo da espécie, do número de indivíduos, e das especificidades da área onde os animais estiverem ocorrendo.

Os abrigos podem ser cavernas, grutas, fendas em rochas, ocos em árvores, pontes, viadutos, bueiros, casas abandonadas, casas habitadas, sótãos, forros, porões, telhados, caixas de ar condicionado, caixas de persiana, galpões, folhagens, minas abandonadas, estádios de futebol (marquises), construções (em alguns casos), vão de dilatação, fornos abandonados para secar fumo em áreas rurais, chaminés.



11 CURIOSIDADES SOBRE MORCEGOS

As curiosidades abaixo mencionadas foram obtidas, em grande parte, a partir de Tabacow (2002). Veja detalhes nas referências bibliográficas ao final do artigo.

1) As cinco maiores alegrias da humanidade. Na China antiga, a palavra FU significava morcego, mas também felicidade. Padrões em tecidos chineses, com representação de morcegos em número de cinco, simbolizavam as cinco maiores alegrias da humanidade: saúde, felicidade, longevidade, prosperidade e contentamento.

2) Ornamentos Maia. Na mitologia Maia, os morcegos eram representados principalmente em ornamentos como pequenos vasinhos e em cerâmicas.

3) Deuses Astecas. Nos manuscritos dos povos Astecas, morcegos são considerados deuses e estão associados à cultura do milho e aos rituais de fertilidade.

4) Cultos no México. Ainda hoje, no México, estes animais seguem sendo cultuados pelas populações locais. No Estado de Vera Cruz, há o culto ao Deus de uma grande caverna onde mulheres grávidas oferecem presentes (alimentos) aos morcegos e rezam pelo sucesso de sua gestação e do parto de seus bebês.

5) Monumentos em Yucatán. Na Costa Rica e no México (regiões de Yucatán, Vera Cruz), muitos povos nativos construíram objetos e monumentos com desenhos de morcegos.

6) Fabricação de pólvora. Durante o século XIX, utilizava-se excremento de morcegos, denominado guano, como uma das matérias primas para a fabricação da pólvora.

7) Opereta de Johann Strauss. O compositor austríaco Johann Strauss Jr. (1825-1899), autor da famosa valsa Danúbio Azul, escreveu, entre muitos outros gêneros, dezesseis operetas, sendo O Morcego (1874) a de maior notoriedade.

8) Adaptações para voar. Diversas adaptações morfológicas proporcionaram a capacidade de voar aos morcegos. São mais visíveis o crescimento dos dedos das mãos e o desenvolvimento de uma membrana unindo os dedos e o corpo.

9) Andaraí, Rio dos Morcegos. A palavra andaraí, que designa no Brasil muitos municípios, bairros e ruas, significa “rio dos morcegos” na língua dos índios cariris, povo indígena com presença marcante no passado, principalmente nos Estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

10) 20 a 30 anos de vida. Quanto à expectativa de vida dos morcegos, pode-se considerar alta, no caso de algumas espécies. As insetívoras, por exemplo, podem chegar aos 30 anos. Morcegos hematófagos, na natureza, podem chegar quase aos 20 anos.

11) Ecolocalização. A capacidade imensa que os morcegos possuem de se locomover no escuro deve-se ao fato de emitirem ultra-sons. Por meio destes sons, os quirópteros podem evitar até mesmo os menores obstáculos e, em pleno vôo, podem localizar as menores presas. Os quirópteros detectam os objetos com os ouvidos. Os sons emitidos pelos morcegos neste processo estão situados há alguns milhares de ciclos acima do limite da capacidade de audição do homem.



8 DICAS DE PREVENÇÃO E DOENÇAS ASSOCIADAS AOS MORCEGOS

1) Você jamais deve tentar pegar um morcego sem orientação e manejo técnico adequado, independente do animal estar vivo ou morto.

2) Se for mordido por um morcego, procure imediatamente um posto médico ou um pronto socorro.

3) Os morcegos, da mesma forma como ocorre com muitas espécies de mamíferos, principalmente cães e gatos, podem transmitir a raiva.

4) Outra doença que foi associada a morcegos e vírus é a febre amarela. Trata-se de uma divulgação precipitada, que pode levar a perseguições injustificadas contra algumas espécies de quirópteros em todo o território brasileiro. Esta associação, no Brasil, ainda carece de comprovações científicas e laboratoriais. Num contexto em que tivemos alguns casos de febre amarela no País, em 2007, é fundamental que a população seja informada que esta associação da febre amarela - com quirópteros fazendo parte do ciclo da doença - tem pouca chance de vir a ser algo real e comprovado por casos clínicos em municípios brasileiros.

5) Exemplos de doenças que podem ser transmitidas por morcegos: histoplasmose e blastomicose sul-americana, que são associadas à presença de fungos.

6) Doenças que podem ser associadas a morcegos e bactérias: leptospirose, brucelose.

7) Um exemplo de doença que pode ser associada a morcegos e protozoários: Doença de Chagas.

8) Para resumirrmos a questão de doenças relacionadas a morcegos, cabe enfatizar que as duas com maior número de registros são a raiva e a histoplasmose. As restantes apresentam ocorrências extremamente raras.



SUGESTÕES DE SITES

Casa dos Morcegos
www.casadosmorcegos.org

Ong Ação Ambiental Morcego Livre
www.morcegolivre.vet.br

Bat Conservation International
www.batcon.org


AGRADECIMENTOS

Agradeço aos biólogos e colegas Wilson Uieda, Marco Aurélio Ribeiro Mello e Rodrigo Almeida Hein por terem permitido a utilização de fotografias de sua autoria, que em muito enriqueceram este artigo. Meus agradecimentos também ao médico-veterinário e amigo William Henrique Stutz, por ter permitido o uso de fotografias retiradas do site da Ong Ação Ambiental Morcego Livre. As referidas fotos estão inseridas no arquivo PDF para download nesta página.


DADOS SOBRE O AUTOR

Kleber Pinto Antunes de Oliveira é biólogo e mastozoólogo. Reside em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Atua em pesquisas com quirópteros (morcegos) desde 1993. Atuou em monitoramento de fauna de morcegos em 2005 e 2006, em quatro áreas sob influência da Usina Hidrelétrica de Barra Grande, na divisa entre os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Efetuou pesquisas em regiões destes dois Estados, principalmente no litoral do RS, entre 2001 e 2004, no município de Mampituba. Integrou atividades e realizações do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, durante três anos. É sócio fundador da SBEQ – Sociedade Brasileira para o Estudo dos Quirópteros, criada em outubro de 2006.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHEREM, J.J.; SIMÕES-LOPES, P.C.; ALTHOFF, S. & GRAIPEL, M.E. Lista dos Mamíferos do Estado de Santa Catarina, Sul do Brasil. Mastozoologia Neotropical, 11(2): 151-184,2004.

GREENHAL, A.M.; SCHMIDT, U.; JOERMANN, G. Diphylla ecaudata. Mammalian Species, v.227. New York. 1984. p. 1-3.

TABACOW, J. A Vida dos Morcegos. Ilustrações: Ivan Rodrigues. Colaboração: Marlon Zortéa. Studio Nobel. São Paulo – SP. 2002.


SUGESTÕES DE BIBLIOGRAFIA

FABIÁN, M.E.; RUI, A.M. & OLIVEIRA, K.P.A. Distribuição Geográfica de Morcegos Phyllostomidae (Mammalia: Chiroptera) no Rio Grande do Sul, Brasil. Iheringia, Série Zoologia, Porto Alegre, (87): 143-156, 1999.

MORCEGOS DO BRASIL. NELIO, R.R. et al. Londrina, PR. Vários colaboradores. 253p.: il.
2007.

OLIVEIRA, K.P.A. Distribuição Geográfica de Chiroptera (Mammalia) nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Monografia de Bacharelado em Ciências Biológicas. UFRGS.
Porto Alegre, RS. 1994. 135p.

OLIVEIRA, K.P.A. Novos dados sobre a quiropterofauna de Mampituba, Rio Grande do Sul, Brasil. Resumos. I Congresso Sul Americano de Mastozoologia, Gramado, RS: SBMz, 2006, p.59.

PACHECO, S.M.; SEKIAMA, M.L.; OLIVEIRA, K.P.A. et al. Biogeografia de Quirópteros da Região Sul. Ciência & Ambiente. N° 35 - semestral (julho-dezembro). Fauna Neotropical. Universidade Federal de Santa Maria, RS. p.181 – 202. 2007.


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